sábado, 9 de fevereiro de 2008

PrepotênciA²

Você já sentiu vontade de “corrigir” (Não seja covarde, tire estas aspas!) alguma coisa na linguagem, ou no enredo de suas histórias e autores favoritos? Essa é a idéia. Se o final não nos agradou, reescrevemos ele. Se um personagem precisava de ajustes, cá eles estão! Se uma poesia precisava de adendos, certamente os colocaremos. Prepotentes?! Não. Apenas estamos fazendo o que você não teve coragem. O texto original e o “melhorado” (última chance...) estão disponíveis. Assuma-se! Comente! Denuncie aqueles que precisam de nosso corretivo. Atualizações mensais, comentários semanais.

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José Saramago (1922) é um escritor português premiado em 1998 com o Nobel de Literatura pela obra “Ensaio sobre a cegueira” a qual “revisamos” sua primeira página nesta edição. Apreciando sua linguagem característica, de travessões ausentes e estendidos parágrafos, e, tendo em vista no enredo uma dificuldade que se espalha sobre toda uma população, lançamos uma pequena perspectiva sobre como seria um ensaio sobre outro sentido.

Ensaio sobre a Cegueira (2008)- Trecho Original
José Saramago
Cia das Letras (2004)
São Paulo -SP


O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões surgiu o desenho do homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam. Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata. Os peões já acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre para os carros vai tardar ainda alguns segundos, há quem sustente que esta demora, aparentemente tão insignificante, se a multiplicarmos pelos milhares de semáforos existentes na cidade e pelas mudanças sucessivas das três cores de cada um, é uma das causas mais consideráveis dos engorgitamentos da circulação automóvel, ou engarrafamentos, se quisermos usar o termo corrente.

O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o transito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.

Ninguém o diria. Apreciados como neste momento é possível, apenas de relance, os olhos do homem parecem sãos, a íris apresenta-se nítida, luminosa, a esclerótica branca, compacta como porcelana. As pálpebras arregaladas, a pele crispada da cara, as sobrancelhas de repente revoltas, tudo isso, qualquer o pode verificar, é que se descompôs pela angústia. Num movimento rápido, o que estava à vista desapareceu atrás dos punhos fechados do homem, como se ele ainda quisesse reter no interior do cérebro a última imagem recolhida, uma luz vermelha, redonda, num semáforo. Estou cego, estou cego, repetia com desespero enquanto o ajudavam a sair do carro, e as lágrimas, rompendo, tornaram mais brilhantes os olhos que ele dizia estarem mortos. Isso passa, vai ver que isso passa, às vezes são nervos, disse uma mulher. O semáforo já tinha mudado de cor, alguns transeuntes curiosos aproximavam-se do grupo, e os condutores lá de trás, que não sabiam o que estava a acontecer, protestavam contra o que julgavam ser um acidente de transito vulgar, farol partido, guardalamas amolgado, nada que justificasse a confusão, Chamem a polícia, gritavam, tirem daí essa lata. O cego implorava, Por favor, alguém que me leve a casa. A mulher que falara de nervos foi de opinião que se devia chamar uma ambulância, transportar o pobrezinho ao hospital, mas o cego disse que isso não, não queria tanto, só pedia que o encaminhassem até à porta do prédio onde morava, Fica aqui muito perto, seria um grande favor que me faziam. E o carro, perguntou uma voz. Outra voz respondeu, A chave está no sítio, põe-se em cima do passeio. Não é preciso, interveio uma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este senhor a casa. Ouviram-se murmúrios de aprovação. O cego sentiu que o tomavam pelo braço, Venha, venha comigo, dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se no lugar ao lado do condutor, puseram-lhe o cinto de segurança, Não vejo, não vejo, murmurava entre o choro, Diga-me onde mora, pediu o outro. Pelas janelas do carro espreitavam caras vorazes, gulosas da novidade. O cego ergueu as mãos diante dos olhos, moveu-as, Nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite.

Mas a cegueira não é assim, disse o outro, a cegueira, dizem que é negra, Pois eu vejo tudo branco, Se calhar a mulherzinha tinha razão, pode ser coisa de nervos, os nervos são o diabo, Eu bem sei o que é, uma desgraça, sim, uma desgraça, Diga-me onde mora, por favor, ao mesmo tempo ouviu-se o arranque do motor. Balbuciando, como se a falta de visão lhe tivesse enfraquecido a memória, o cego deu uma direcção, depois disse, Não sei como lhe hei-de agradecer, e o outro respondeu, Ora, não tem importância, hoje por si, amanhã por mim, não sabemos para o que estamos guardados, Tem razão, quem me diria, quando saí de casa esta manhã, que estava para me acontecer uma fatalidade como esta. Estranhou que continuassem parados, por que é que não andamos, perguntou, O sinal está no vermelho, respondeu o outro, Ah, fez o cego, e pôs-se a chorar outra vez. A partir de agora deixara de poder saber quando o sinal estava vermelho.

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Ensaio sobre a Cegueira (1995)- Trecho Corrigido
Felipe Camilo
Jamie Barteldes
Fortaleza-Ce
Brasil

No outro lado do cruzamento, o disco amarelo iluminou-se. O ronco dos motores à espera da partida na via de faróis vermelhos espantava o silêncio, o qual um motorista, apesar dos radiofones do telemóvel que se encontravam em seus ouvidos à espera de um comunicado importante, contemplava. Os últimos peões andavam apressados não desejando estar no caminho daqueles motores ansiosos quando o farol enfim mudasse. Há quem sustente, e os automóveis deste lado concordariam, se a eles lhe permitissem expressar-se, que esta espera é causada pela existência do disco amarelo o qual nos referimos no início e que se encontra aceso do outro lado do cruzamento. Os viandantes, é claro, discordam prontamente desta tese.

O sinal verde acendeu-se enfim, o carro do Homem Contemplativo, primeiro da fila, arrancou bruscamente. Porém, mal passava a faixa listrada dos peões, um forte som, que em muito se assemelha ao de um monitor cardíaco com apitar contínuo de morte, chega-lhe aos ouvidos, impedindo-o de atentar-se à sirene do veículo policial que avançava no cruzamento. Os oito pneus estancaram a corrida à tempo, não havendo acidente, mas sim um ajuntamento de motores frustrados em um engorgitamento da circulação automóvel, ou engarrafamento, se quisermos usar o termo corrente. Já está a se formar um grupo de passantes lançando suposições sobre o ocorrido, Deve ser um daqueles nervosos, Talvez uma mulher, cumprindo o ditado, Não se pode culpar alguém pela pressa do militares, Sabe-se lá se realmente iam atender uma emergência, não indo, não seria a primeira vez que se dava o caso. Os soldados, já chegavam à porta do carro e o Homem Contemplativo nem o vidro descera. Batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, três, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Não vos ouço.

Ninguém o diria. Apreciado como neste momento é possível, apenas de relance, o homem parecia são, a não ser pelo chacoalhar da cabeça, direcionando o ouvido para onde deveria achar voz e pelo volume da fala. Tudo isso, qualquer o pode verificar, é que se descompôs pela angústia. Estou surdo, estou surdo, repetia com desespero enquanto via o rosto daqueles que o ajudavam a sair do carro, tentando em vão falar-lhe frases consoladoras engolidas pelo persistente barulho, sem que lhe chegasse um acalma-te, vais ficar bem, Isso passa, vai ver que isso passa, às vezes são nervos, disse uma mulher. O semáforo já tinha mudado de cor, alguns transeuntes curiosos aproximavam-se do grupo, e os condutores lá de trás, que não sabiam o que estava a acontecer, protestavam sem que suas ofensas atingissem o receptor. Gritavam, tirem daí essa lata. O homem calou-se, sequer sabia se lhe entendiam. Os policias dispersavam o amontoado de olhos curiosos. A mulher que falara de nervos foi de opinião que se devia chamar uma ambulância. Já o Homem surdo, sem compreender a situação sentia uma raiva crescente apossar-se-lhe. O som, semelhante a um perene pulso telefônico, parecia tirar-lhe o controle das ações. Esqueçam a ambulância, vou leva-lo em seu próprio carro ao hospital, falou o militar de menos estrelas no peito. Ouve-se murmúrios de aprovação. Anote para ele e sigam, disse o superior. Com uma rápida resposta rabiscada às pressas no caderno afirmou querer ir para casa, escrevendo o logradouro logo abaixo. Pelas janelas do carro o mundo uivava-lhe, quase em estado de convulsão furiosa, o Homem Contemplativo berrou ao interlocutor, Ouço um apitar agudo que já me vai consumindo a calma.

Ao menos não é surdez, disse e escreveu o outro ao pararem em um cruzamento, mas o que realmente desejava o soldado, já pelas tantas com os gritos, era que o homem de súbito também emudecesse. Ironia, mal sabia ele que em breve desejaria voltar a ouvi-lo. Resta-lhe no futuro que se desvendará superar os fatos sem crer que fora um castigo por sua vilania contida. A tal surdez confundia o surdo, um homem tão polido outrora. Não achou dentro de si modos ou mesmo o desejo de agradecer àquele que pela farda cumpria seu dever cívico. Estava ciente que fosse buscar em qualquer parte do mundo ou dentro de si, jamais contemplaria o silêncio novamente.

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