O convidado inaugural desta sessão é Filipe Teixeira. Cronista, poeta e crítico de cinema, Filipe é autor do zine “Só meu gato me entende”, sacado de seu bolso no primeiro contato com seu leitor.
VOCÊ ABRIU AS JANELAS DA LEMBRANÇA
Foi estranho vê-la hoje, Débora. Adorei seu cabelo. Assim, com ele curto, você fica mais bonita. Ele parecia mais claro também. Talvez ele tenha tido sempre essa cor, mas eu nunca tenha percebido em virtude de estar sempre olhando para qualquer outra parte de seu corpo pequeno. Ou talvez por nunca ter precisado percebê-lo. Mas dos seus olhos eu lembro. Lembro de um dia, nós dois no meu quarto, à noite, e só a luz do poste lá fora nos iluminando. Eu lembro sim. Seus olhos tinham um brilho doce e um movimento ora frenético, acompanhando sua respiração, ora calmo, parecendo que você ia se render enfim. Mas naquele dia, Débora, você não se rendeu. Hoje não deu pra ver seus olhos, castanho-claros, eu lembro, você ficou distante. Confesso que demorei a reconhecê-la, mas deve ter sido porque eu acabara de acordar, e meus olhos demoram muito a se acostumar com a luz, principalmente porque dormi muito mal ontem à noite.
Se você não tivesse falado comigo eu seria capaz de adormecer naquela fila, encostado à parede, mas senti o toque da sua mão no meu braço e quando virei vi o brilho do sol das dez horas refletindo na sua pele tão branca. Realmente demorei a reconhecê-la. Você deve ter percebido minha cara de quem tenta se lembrar de um rosto entre tantos numa memória cansada. Mas você sorriu, Débora, e aqueles seus dentes tão iguaizinhos e brancos, tão apaixonantes… mentira, eu nunca me apaixonei por você… mas você sorriu hoje de manhã e aí liguei sua imagem às lembranças fragmentadas que me vieram à mente naqueles poucos segundos constrangedores, representados pelo meu rosto ainda inchado da noite mal dormida. Não lembro se estendi minha mão ou se só pensei em fazer isso, mas lembro do embaraço que senti quando vi sua mãe atrás de você no momento em que eu ia perguntar pela sua filha. Eu não sabia se era para eu saber disso. Não sabia se eu poderia participar assim da sua vida. O que eu sabia era que você estava com aquela beleza que só as recém-mães são capazes de ter. Uma beleza sóbria, meio cansada e que me fazia sentir saudades de um sentimento que eu nunca alimentara por você, Débora, não se pode dizer… não posso dizer que senti algo por você, pela pessoa, pelo ser humano Débora, pois tudo que eu sentia era pelo corpo e imaginava o prazer que ele me proporcionava e me proporcionaria ainda. Mesmo assim senti saudade.
Eu devo ter perguntado algo como “Então, e a vida?”, e você deve ter respondido “Indo, vai indo”, e depois deve ter sorrido. Deve ter exibido os mesmo dentes que você exibia quando estava subindo as escadas do colégio e percebia que eu estava lá em cima observando você subir, tomando cuidado pra que os mais apressados não derramassem seu suco de maracujá. E você parecia tão linda daquele ângulo. Hoje eu percebo, mas naquela época meu intuito, única e exclusivamente era de perceber como seus seios pareciam bem maiores quando eu os olhava de cima. E olhando para eles, hoje de manhã… é, eu não pude deixar de desviar meu olhar, reparei que estavam soberbamente inflados, mas trocarei o adjetivo: estavam soberbamente maternos. Você é mãe agora. Porém, mesmo assim, cretinamente, pensei: “É uma mãe que eu comeria”. Eu já estava suficientemente acordado para pensar em sexo. Principalmente com você, Débora.
— Tem visto o pessoal?
É o que se pergunta. Eu perguntaria isso se não estivesse afogado nas lembranças daquelas suas visitas, tantas lembranças…
Seu rosto suado e a vermelhidão ao redor dos seus lábios por causa da minha barba por fazer é uma imagem que nunca vai se apagar da minha memória. Sua calcinha da Magali, branca, com os elásticos azuis, enxugava o suor das minhas coxas naquele vai-e-vem inútil pela natureza do seu corpo feminino, e eu mergulhava meu rosto entre seus seios de mamilos cor-de-rosa para depois levar minha língua à sua boca e recomeçarmos aquela série de respirações, olhares e gemidos que pediam algo que não podíamos realizar, não naquelas tardes de quarta e quinta daquele agosto distante.
— Não, às vezes vejo o Elias, mas muito raramente, foi o que respondi, embora fosse mentira. Olhei para seus pés. Estavam calçados numa sandália que só uma mãe calçaria.
— Ah! Eu também me desliguei das meninas, do pessoal da igreja, meu bebê tá tomando todo meu tempo. Quem eu vejo muito é a Lívia, lembra dela?
— Lembro.
Olhei para sua mãe novamente, dei um sorrisinho como quem diz “Ela já vai, viu” e voltei a olhar para você. Não soube mais o que dizer, tornei a olhara para sua mãe e da minha mente emergiu aquele dia em que eu toquei a campainha da sua casa e ela veio me atender dizendo que você já vinha. Aí você surgiu com o Mingau, o gato, nos braços. Fiquei excitado só de lembrar da sua calcinha da Magali. Você vestia uma blusa e um short jeans. Dava para perceber seus mamilos marcando a blusa. Atentei para o detalhe e você disse que era porque não havia encontrado um sutiã na bagunça do seu quarto. Fiquei mais excitado ainda, e quando tentei beijá-la, você se esquivou dizendo que estava namorando alguém. Não quis acreditar, tentei beijá-la novamente, mas foi
— Bom, eu já vou indo. Minhas pernas estão tão cansadas. É o resguardo, falou ela já andando.
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