sábado, 9 de fevereiro de 2008

A2 >> o E-Zine !



Agora somos ecologicamente corretos! Melhor que plantar novas mudas é preservar as atuais! (O que não significa que ela tenha deixado de cortar gravuras. Aliás, o melhor de tudo isso é não gastar dinheiro com fotocópias - afinal as aulas da uece voltarão cedo ou tarde, assegurando o sustento da família dos tios da xerox. E desta forma mais uma vez socialmente corretos.) . Após o "adorável" comentário Felipe, mostrando a esquizofrenia do A2, voltemos à apresentação de nosso E-zine de Fevereiro, o piloto.

Este é um espaço de ebulição (é o que Jamie?!) de idéias, interatividade, bom humor e arte. Pelo menos, é o tentaremos fazer todos os meses (Com fotos, textos, tirinha e com a contribuição do pessoal, né J...). Ò a zuada ô das anteninhas rosas!...Então, leiam, visitem o site, comentem aqui ou no orkut, divulguem e mandem coisas!

(uhf ghif muph! Eu nem queria essa foto e...e...e elas são roxas viu?! Sua daltônica...)

PrepotênciA²

Você já sentiu vontade de “corrigir” (Não seja covarde, tire estas aspas!) alguma coisa na linguagem, ou no enredo de suas histórias e autores favoritos? Essa é a idéia. Se o final não nos agradou, reescrevemos ele. Se um personagem precisava de ajustes, cá eles estão! Se uma poesia precisava de adendos, certamente os colocaremos. Prepotentes?! Não. Apenas estamos fazendo o que você não teve coragem. O texto original e o “melhorado” (última chance...) estão disponíveis. Assuma-se! Comente! Denuncie aqueles que precisam de nosso corretivo. Atualizações mensais, comentários semanais.

***

José Saramago (1922) é um escritor português premiado em 1998 com o Nobel de Literatura pela obra “Ensaio sobre a cegueira” a qual “revisamos” sua primeira página nesta edição. Apreciando sua linguagem característica, de travessões ausentes e estendidos parágrafos, e, tendo em vista no enredo uma dificuldade que se espalha sobre toda uma população, lançamos uma pequena perspectiva sobre como seria um ensaio sobre outro sentido.

Ensaio sobre a Cegueira (2008)- Trecho Original
José Saramago
Cia das Letras (2004)
São Paulo -SP


O disco amarelo iluminou-se. Dois dos automóveis da frente aceleraram antes que o sinal vermelho aparecesse. Na passadeira de peões surgiu o desenho do homem verde. A gente que esperava começou a atravessar a rua pisando as faixas brancas pintadas na capa negra do asfalto, não há nada que menos se pareça com uma zebra, porém assim lhe chamam. Os automobilistas, impacientes, com o pé no pedal da embraiagem, mantinham em tensão os carros, avançando, recuando, como cavalos nervosos que sentissem vir no ar a chibata. Os peões já acabaram de passar, mas o sinal de caminho livre para os carros vai tardar ainda alguns segundos, há quem sustente que esta demora, aparentemente tão insignificante, se a multiplicarmos pelos milhares de semáforos existentes na cidade e pelas mudanças sucessivas das três cores de cada um, é uma das causas mais consideráveis dos engorgitamentos da circulação automóvel, ou engarrafamentos, se quisermos usar o termo corrente.

O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o transito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.

Ninguém o diria. Apreciados como neste momento é possível, apenas de relance, os olhos do homem parecem sãos, a íris apresenta-se nítida, luminosa, a esclerótica branca, compacta como porcelana. As pálpebras arregaladas, a pele crispada da cara, as sobrancelhas de repente revoltas, tudo isso, qualquer o pode verificar, é que se descompôs pela angústia. Num movimento rápido, o que estava à vista desapareceu atrás dos punhos fechados do homem, como se ele ainda quisesse reter no interior do cérebro a última imagem recolhida, uma luz vermelha, redonda, num semáforo. Estou cego, estou cego, repetia com desespero enquanto o ajudavam a sair do carro, e as lágrimas, rompendo, tornaram mais brilhantes os olhos que ele dizia estarem mortos. Isso passa, vai ver que isso passa, às vezes são nervos, disse uma mulher. O semáforo já tinha mudado de cor, alguns transeuntes curiosos aproximavam-se do grupo, e os condutores lá de trás, que não sabiam o que estava a acontecer, protestavam contra o que julgavam ser um acidente de transito vulgar, farol partido, guardalamas amolgado, nada que justificasse a confusão, Chamem a polícia, gritavam, tirem daí essa lata. O cego implorava, Por favor, alguém que me leve a casa. A mulher que falara de nervos foi de opinião que se devia chamar uma ambulância, transportar o pobrezinho ao hospital, mas o cego disse que isso não, não queria tanto, só pedia que o encaminhassem até à porta do prédio onde morava, Fica aqui muito perto, seria um grande favor que me faziam. E o carro, perguntou uma voz. Outra voz respondeu, A chave está no sítio, põe-se em cima do passeio. Não é preciso, interveio uma terceira voz, eu tomo conta do carro e acompanho este senhor a casa. Ouviram-se murmúrios de aprovação. O cego sentiu que o tomavam pelo braço, Venha, venha comigo, dizia-lhe a mesma voz. Ajudaram-no a sentar-se no lugar ao lado do condutor, puseram-lhe o cinto de segurança, Não vejo, não vejo, murmurava entre o choro, Diga-me onde mora, pediu o outro. Pelas janelas do carro espreitavam caras vorazes, gulosas da novidade. O cego ergueu as mãos diante dos olhos, moveu-as, Nada, é como se estivesse no meio de um nevoeiro, é como se tivesse caído num mar de leite.

Mas a cegueira não é assim, disse o outro, a cegueira, dizem que é negra, Pois eu vejo tudo branco, Se calhar a mulherzinha tinha razão, pode ser coisa de nervos, os nervos são o diabo, Eu bem sei o que é, uma desgraça, sim, uma desgraça, Diga-me onde mora, por favor, ao mesmo tempo ouviu-se o arranque do motor. Balbuciando, como se a falta de visão lhe tivesse enfraquecido a memória, o cego deu uma direcção, depois disse, Não sei como lhe hei-de agradecer, e o outro respondeu, Ora, não tem importância, hoje por si, amanhã por mim, não sabemos para o que estamos guardados, Tem razão, quem me diria, quando saí de casa esta manhã, que estava para me acontecer uma fatalidade como esta. Estranhou que continuassem parados, por que é que não andamos, perguntou, O sinal está no vermelho, respondeu o outro, Ah, fez o cego, e pôs-se a chorar outra vez. A partir de agora deixara de poder saber quando o sinal estava vermelho.

***

Ensaio sobre a Cegueira (1995)- Trecho Corrigido
Felipe Camilo
Jamie Barteldes
Fortaleza-Ce
Brasil

No outro lado do cruzamento, o disco amarelo iluminou-se. O ronco dos motores à espera da partida na via de faróis vermelhos espantava o silêncio, o qual um motorista, apesar dos radiofones do telemóvel que se encontravam em seus ouvidos à espera de um comunicado importante, contemplava. Os últimos peões andavam apressados não desejando estar no caminho daqueles motores ansiosos quando o farol enfim mudasse. Há quem sustente, e os automóveis deste lado concordariam, se a eles lhe permitissem expressar-se, que esta espera é causada pela existência do disco amarelo o qual nos referimos no início e que se encontra aceso do outro lado do cruzamento. Os viandantes, é claro, discordam prontamente desta tese.

O sinal verde acendeu-se enfim, o carro do Homem Contemplativo, primeiro da fila, arrancou bruscamente. Porém, mal passava a faixa listrada dos peões, um forte som, que em muito se assemelha ao de um monitor cardíaco com apitar contínuo de morte, chega-lhe aos ouvidos, impedindo-o de atentar-se à sirene do veículo policial que avançava no cruzamento. Os oito pneus estancaram a corrida à tempo, não havendo acidente, mas sim um ajuntamento de motores frustrados em um engorgitamento da circulação automóvel, ou engarrafamento, se quisermos usar o termo corrente. Já está a se formar um grupo de passantes lançando suposições sobre o ocorrido, Deve ser um daqueles nervosos, Talvez uma mulher, cumprindo o ditado, Não se pode culpar alguém pela pressa do militares, Sabe-se lá se realmente iam atender uma emergência, não indo, não seria a primeira vez que se dava o caso. Os soldados, já chegavam à porta do carro e o Homem Contemplativo nem o vidro descera. Batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, três, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Não vos ouço.

Ninguém o diria. Apreciado como neste momento é possível, apenas de relance, o homem parecia são, a não ser pelo chacoalhar da cabeça, direcionando o ouvido para onde deveria achar voz e pelo volume da fala. Tudo isso, qualquer o pode verificar, é que se descompôs pela angústia. Estou surdo, estou surdo, repetia com desespero enquanto via o rosto daqueles que o ajudavam a sair do carro, tentando em vão falar-lhe frases consoladoras engolidas pelo persistente barulho, sem que lhe chegasse um acalma-te, vais ficar bem, Isso passa, vai ver que isso passa, às vezes são nervos, disse uma mulher. O semáforo já tinha mudado de cor, alguns transeuntes curiosos aproximavam-se do grupo, e os condutores lá de trás, que não sabiam o que estava a acontecer, protestavam sem que suas ofensas atingissem o receptor. Gritavam, tirem daí essa lata. O homem calou-se, sequer sabia se lhe entendiam. Os policias dispersavam o amontoado de olhos curiosos. A mulher que falara de nervos foi de opinião que se devia chamar uma ambulância. Já o Homem surdo, sem compreender a situação sentia uma raiva crescente apossar-se-lhe. O som, semelhante a um perene pulso telefônico, parecia tirar-lhe o controle das ações. Esqueçam a ambulância, vou leva-lo em seu próprio carro ao hospital, falou o militar de menos estrelas no peito. Ouve-se murmúrios de aprovação. Anote para ele e sigam, disse o superior. Com uma rápida resposta rabiscada às pressas no caderno afirmou querer ir para casa, escrevendo o logradouro logo abaixo. Pelas janelas do carro o mundo uivava-lhe, quase em estado de convulsão furiosa, o Homem Contemplativo berrou ao interlocutor, Ouço um apitar agudo que já me vai consumindo a calma.

Ao menos não é surdez, disse e escreveu o outro ao pararem em um cruzamento, mas o que realmente desejava o soldado, já pelas tantas com os gritos, era que o homem de súbito também emudecesse. Ironia, mal sabia ele que em breve desejaria voltar a ouvi-lo. Resta-lhe no futuro que se desvendará superar os fatos sem crer que fora um castigo por sua vilania contida. A tal surdez confundia o surdo, um homem tão polido outrora. Não achou dentro de si modos ou mesmo o desejo de agradecer àquele que pela farda cumpria seu dever cívico. Estava ciente que fosse buscar em qualquer parte do mundo ou dentro de si, jamais contemplaria o silêncio novamente.

Crônica2

Memória Anti-virtual


Uma recordação. Uma memória qualquer. Não em fotos. Não em blogs, fotologs e outros logs. Uma recordação. Uma memória qualquer. Nada de scraps ou comunidades. Nada de
vídeos. Nada de emoticons. Uma recordação. Uma memória qualquer. Nada de nada.

Eu quero ser sem IP.

E se até o HD se for, virei a ser. Não sei o que.

Uma recordação. Uma memória qualquer. Sei que sou mais, estou por detrás da retina - mais que um segundo, mais que 7 megapixels perdido junto de outros 200 ou 500 em uma pasta do teu PC.

Sou tátil, quase digital, supra-virtual, anti-virtual. Os bytes de minhas palavras são passiveis de sentimento. Sua ausência, agora, para explicar-te o que digo sugerem sensações e sentimentos que tu não vês, apenas sente. Falta então gravar-me em tua memória sem pixels ou ids, pois não caibo somente no quadrado visível do teu monitor.

É difícil eu sei, nenhum servidor me comporta. Uma recordação. Uma memória. Sou eterno em qualquer sentido, não apenas em áudio e vídeo. Sou pior que trojan, que vírus, pois para onde vou não adianta formatar um HD. E mesmo se matam um homem que a mim carrega e espalha, da morte fortalece minha lembrança, até no seu findar enriqueço em Ids.

Meu nome, meu conceito é intangível para fazê-los arquivo, mesmo com áudio e vídeo, mesmo com mil blogs com mil fotos cada, mesmo com scraps, fãs e 600 comunidades. À quem, binário, resume a tão pouco suas possibilidades de saber e sentir sou um primeiro parágrafo de uma crônica não concluída, durante quarenta e oito segundos. Sou, porém, eterno aos olhos e ouvidos atentos a quantos gigabytes forem preciso para transcender-se.

Sou o império dos sentidos que se expande. Uma recordação. Um diabo supra-virtual. Uma memória qualquer.

Minha identidade não se imprime com HP.

Felipe Camilo
. 04 de Janeiro de 2008.





Jogar coisas fora

“Estou me acostumando comigo
Revendo a casa, os vizinhos
E os vazamentos
E isso já não me assusta mais”



É necessário jogar coisas fora.

E isso, ao menos para mim, é extremamente difícil.

Simplesmente nos acostumamos a acumular coisas na vida, a arquivar tudo o que por ventura nos passa – achamos que tudo é essencial, vital e esse “é” perdura-se por um tempo inacreditável até apodrecer em um “foi”. As traças são, na verdade, extensões de nossas consciências, elas rasgam o que não nos é mais necessário, encostado no fundo de um armário cheirando a memórias e a mofo, estraçalham aquilo que conscientemente dizemos que uma hora vamos precisar.

É necessário jogar coisas fora.

E isso, ao menos para mim, é extremamente difícil. Mas é o que venho fazendo.
Eu não necessito da metade dos papéis que possuo. Eu viveria muito bem com metade das roupas que acumulo no guarda-roupa. Eu não falo com a metade dos meus contatos do MSN e do Orkut e não tenho 1/6 dos amigos que acredito ter. E estou me livrando do desnecessário um a um.

Não é uma questão de livra-se de alguns papéis inúteis, é abrir espaço para novos. É, antes de esperar que novas e boas coisas lhe aconteçam, preparar-lhes o caminho, acostumar-se com a idéia. Mudar é ruim e bom, mudar, invariavelmente dói. Mas sem mudança, não há evolução e sem evolução, continuamos perdidos em lembranças do que se foi, absortos em preocupações do passado, ligados a pessoas que são ligadas a uma pessoa que você há muito não é mais.

Trilha Sonora: “Me gusta” – Zélia Duncan
Jamie Paula Colares Barteldes Kardozo
09/01/2008

À Deus

A existência não lhe servia mais. A morte lhe levaria ao inferno. Concluiu. Com telefone em mãos, Decidira ligar para Deus e pedir-lhe o cancelamento de sua vida.


Você tem a oportunidade de falar a Deus e dizer-lhe aquilo lhe impele a cancelar esta dádiva/Maldição, a vida. Escreva no blog, no orkut, nos envie por email. Os destaques de cada mês virão ao ar neste zine virtual.


A Primeira Carta, com o título "Retenção", foi enviada por Gladson Caldas, resposável pela ideia original desta seção. Abração Gladson.


Retenção

Enquanto analisa com desprezo sua própria vida, um indeciso senhor conta as balas do revólver em seu punho. Pondera um pouco, coloca a arma em cima da mesa e pega o telefone. Disca, chama cinco vezes até atender.

- São Pedro Call Center, meu nome é Regina. Em que posso ajudar?
- Oi, é... Eu quero que vocês me cancelem. Quero cancelar minha linha direta com esse mundo. Não suporto mais minha vida, não quero mais continuar nessa sucessão de desgraças. Sei que um suicídio me levaria para o inferno, então exijo que vocês aí em cima me matem, cancelem minha vida.
- Senhor, o senhor pode dizer o que não está lhe agradando nos nossos serviços, que eu tenho certeza que nós vamos poder estar encontrando uma solução que lhe deixe satisfeito.
- O que não está me agradando? Tudo. Tudo não está me agradando. Começou com coisa pouca. Eu nunca ganhei nada na vida. Jogos, apostas, eu sempre fui um fracasso. Nem bingo de feira de caridade eu nunca ganhei. Mas isso é normal. A situação ficou ruim quando eu comecei a perder as coisas. Nunca fiquei mais de uma semana em um emprego. E não é por falta de competência, é que sempre acontece alguma fatalidade do destino que faz com eu seja posto pra fora. Uma época dessas, eu tinha até um dinheiro bom no banco, mas alguns golpes aqui acolá e quando vi não tinha mais nada. Perdi minha casa. O banco me tomou. E com relação a mulheres, nisso sim eu sou uma negação. Só transei duas vezes na vida, e uma delas eu acho que era homem. Sem falar na incompetência de Deus em me fazer tão feio. (Deus, desculpe pelo “incompetência”, mas nós dois sabemos que eu não sou sua melhor obra). Enfim, motivos de sobra pra me matar. Aliás, cancelar minha vida.
- Senhor, veja pelo lado bom, o senhor tem saúde, ainda pode gozar bastante sua vida, não há motivos para se preocupar. Tenha fé que em breve a felicidade vai alcançar o senhor.
- Saúde? Eu fico doente toda semana, já peguei de tudo. E bem que podia pegar uma doença rara, para aparecer no Fantástico, mas nem isso vocês têm a consideração de me mandar. E eu não caio mais nesse papo de fé, de alcançar a felicidade. A felicidade que vocês podem me dar agora é me matar.
- Senhor, nós podemos ver alguma promoção que melhore sua vida, que deixe o senhor mais satisfeito. O senhor já pensou em grupos dominicais, essas pessoas de igreja parecem ser bem felizes. Que tal um novo plano de vida baseado na fé cristã?
- A senhora ta me gozando? Se eu passar mais um dia perto daquela gente exageradamente feliz de grupos dominicais, eu vou preferir ir para o inferno. E eu já levo uma vida cristã. Meu problema não é religião, e não quero saber de nenhum novo plano de vida. Essa vida já encheu, e é melhor a senhora me cancelar mesmo.
- Mas, senhor, pense nas pessoas que o senhor vai deixar para trás. Como vão sentir falta do senhor. Como o senhor ainda pode fazer muito por elas.
- Pessoas? Que pessoas? Há meses que eu não falo pessoa alguma. O Frederico, meu cacto, suicidou-se faz um tempo, provavelmente por não me suportar mais. E o regador com o qual eu conversava me ignora desde a morte dele. Minha vida foi pelo ralo de um jeito que quando eu vi, já não tinha amigos, nem família. Porque eu atraio desgraça. Sabia que a senhora está correndo perigo só de falar comigo pelo telefone.
- Senhor, eu lamento muito. Eu vou estar passando a ligação para o nosso setor de cancelamentos, para que o senhor possa estar continuando essa ligação. Por favor, aguarde apenas alguns segundos até que o sistema lhe encaminhe.

Musiquinha. Um minuto. Dois minutos. Dez minutos. Vinte minutos...

- São Pedro Call Center, meu nome é Carla. Em que posso ajudar?
- Me passaram para você cancelar minha vida. Eu posso escolher o tipo de morte ou...
- E por qual motivo o senhor estaria querendo cancelar sua vida, senhor?
- Eu já falei tudo com a outra atendente. Ela me encaminhou para você só cancelar e pronto.
- Eu não recebi nenhuma informação, senhor. Mas se o senhor puder estar dizendo o motivo do senhor estar querendo cancelar sua vida, tenho certeza de que nós estaremos encontrando uma solução para o seu problema.
- Meu problema é vocês, que não querem me cancelar! Dá vontade de mandar vocês para aquele lugar.
- É um direito que lhe assiste, senhor. Mas não há motivos para se exaltar. Tenho certeza de que podemos estar encontrando a solução para o seu problema.
- Olha, eu vou dizer, na verdade, o que é. É uma garota. Ela me deixou faz um ano e nesse meio tempo eu fui ficando cada vez mais frio, mais desmotivado. Hoje em dia a vida não tem o menor sentido para mim.
- Então, senhor, nós podemos estar encontrando alguma promoção que motive mais o senhor. Por exemplo, um hobbie. Nós podemos estar disponibilizando um hobbie para o senhor passar o tempo, para ocupar a mente e não ficar pensando nessa garota. Sabe como é, mente vazia é a oficina do concorrente.
- Não, não, nenhum hobbie serviria. O que eu queria mesmo era ela de volta.
- Infelizmente, isso não é possível por causa do livre arbítrio, senhor. Mas nós podemos estar encaminhando um bichinho de estimação para o senhor suprir a carência do dia-a-dia. Pode ser um gato, um cachorro, que tal um papagaio?
- Não, eu não quero droga de papagaio nenhum. Só ela pode suprir o tipo de carência que eu estou sentindo.
- Podemos destinar o senhor a algumas festas, orgias básicas.
- Orgias? Não, não, eu queria era essa garota mesmo.
- Que tal um bônus...
- Eu não quero bônus, eu quero a garota! Ou então morrer. Cancele logo minha vida, faz favor.
- Um momento, senhor, o sistema está caindo.

Musiquinha. Um minuto. Dois minutos...

- São Pedro Call Center, meu nome é Suzana. Em...
- O que, outra?
- Em que posso ajudar, senhor?
- Minha vida. Cancele. Agora.
- Por qual motivo o senhor estaria querendo cancelar, senhor?
- Porque eu quero ir aí no céu pessoalmente dar um soco na cara de cada uma das atendentes de Call Center filha da puta.
- Senhor, não há motivo para se exaltar, tenho certeza de que nós podemos estar encontrando um jeito de deixá-lo satisfeito com os nossos serviços.
- O que eu posso estar encontrando é um motivo para querer ir para o inferno!

Ouve-se um barulho estranho, um estampido seco, um estouro bem alto como se fosse um tiro.

- Senhor... Senhor... Droga. Alô, Gabriel, avisa para o senhor Cristo que nós perdemos mais um para o concorrente.

A2+1 >> Você abriu As Janelas da Lembrança

O convidado inaugural desta sessão é Filipe Teixeira. Cronista, poeta e crítico de cinema, Filipe é autor do zine “Só meu gato me entende”, sacado de seu bolso no primeiro contato com seu leitor.


VOCÊ ABRIU AS JANELAS DA LEMBRANÇA

Foi estranho vê-la hoje, Débora. Adorei seu cabelo. Assim, com ele curto, você fica mais bonita. Ele parecia mais claro também. Talvez ele tenha tido sempre essa cor, mas eu nunca tenha percebido em virtude de estar sempre olhando para qualquer outra parte de seu corpo pequeno. Ou talvez por nunca ter precisado percebê-lo. Mas dos seus olhos eu lembro. Lembro de um dia, nós dois no meu quarto, à noite, e só a luz do poste lá fora nos iluminando. Eu lembro sim. Seus olhos tinham um brilho doce e um movimento ora frenético, acompanhando sua respiração, ora calmo, parecendo que você ia se render enfim. Mas naquele dia, Débora, você não se rendeu. Hoje não deu pra ver seus olhos, castanho-claros, eu lembro, você ficou distante. Confesso que demorei a reconhecê-la, mas deve ter sido porque eu acabara de acordar, e meus olhos demoram muito a se acostumar com a luz, principalmente porque dormi muito mal ontem à noite.

Se você não tivesse falado comigo eu seria capaz de adormecer naquela fila, encostado à parede, mas senti o toque da sua mão no meu braço e quando virei vi o brilho do sol das dez horas refletindo na sua pele tão branca. Realmente demorei a reconhecê-la. Você deve ter percebido minha cara de quem tenta se lembrar de um rosto entre tantos numa memória cansada. Mas você sorriu, Débora, e aqueles seus dentes tão iguaizinhos e brancos, tão apaixonantes… mentira, eu nunca me apaixonei por você… mas você sorriu hoje de manhã e aí liguei sua imagem às lembranças fragmentadas que me vieram à mente naqueles poucos segundos constrangedores, representados pelo meu rosto ainda inchado da noite mal dormida. Não lembro se estendi minha mão ou se só pensei em fazer isso, mas lembro do embaraço que senti quando vi sua mãe atrás de você no momento em que eu ia perguntar pela sua filha. Eu não sabia se era para eu saber disso. Não sabia se eu poderia participar assim da sua vida. O que eu sabia era que você estava com aquela beleza que só as recém-mães são capazes de ter. Uma beleza sóbria, meio cansada e que me fazia sentir saudades de um sentimento que eu nunca alimentara por você, Débora, não se pode dizer… não posso dizer que senti algo por você, pela pessoa, pelo ser humano Débora, pois tudo que eu sentia era pelo corpo e imaginava o prazer que ele me proporcionava e me proporcionaria ainda. Mesmo assim senti saudade.

Eu devo ter perguntado algo como “Então, e a vida?”, e você deve ter respondido “Indo, vai indo”, e depois deve ter sorrido. Deve ter exibido os mesmo dentes que você exibia quando estava subindo as escadas do colégio e percebia que eu estava lá em cima observando você subir, tomando cuidado pra que os mais apressados não derramassem seu suco de maracujá. E você parecia tão linda daquele ângulo. Hoje eu percebo, mas naquela época meu intuito, única e exclusivamente era de perceber como seus seios pareciam bem maiores quando eu os olhava de cima. E olhando para eles, hoje de manhã… é, eu não pude deixar de desviar meu olhar, reparei que estavam soberbamente inflados, mas trocarei o adjetivo: estavam soberbamente maternos. Você é mãe agora. Porém, mesmo assim, cretinamente, pensei: “É uma mãe que eu comeria”. Eu já estava suficientemente acordado para pensar em sexo. Principalmente com você, Débora.

— Tem visto o pessoal?

É o que se pergunta. Eu perguntaria isso se não estivesse afogado nas lembranças daquelas suas visitas, tantas lembranças…

Seu rosto suado e a vermelhidão ao redor dos seus lábios por causa da minha barba por fazer é uma imagem que nunca vai se apagar da minha memória. Sua calcinha da Magali, branca, com os elásticos azuis, enxugava o suor das minhas coxas naquele vai-e-vem inútil pela natureza do seu corpo feminino, e eu mergulhava meu rosto entre seus seios de mamilos cor-de-rosa para depois levar minha língua à sua boca e recomeçarmos aquela série de respirações, olhares e gemidos que pediam algo que não podíamos realizar, não naquelas tardes de quarta e quinta daquele agosto distante.

— Não, às vezes vejo o Elias, mas muito raramente, foi o que respondi, embora fosse mentira. Olhei para seus pés. Estavam calçados numa sandália que só uma mãe calçaria.

— Ah! Eu também me desliguei das meninas, do pessoal da igreja, meu bebê tá tomando todo meu tempo. Quem eu vejo muito é a Lívia, lembra dela?

— Lembro.

Olhei para sua mãe novamente, dei um sorrisinho como quem diz “Ela já vai, viu” e voltei a olhar para você. Não soube mais o que dizer, tornei a olhara para sua mãe e da minha mente emergiu aquele dia em que eu toquei a campainha da sua casa e ela veio me atender dizendo que você já vinha. Aí você surgiu com o Mingau, o gato, nos braços. Fiquei excitado só de lembrar da sua calcinha da Magali. Você vestia uma blusa e um short jeans. Dava para perceber seus mamilos marcando a blusa. Atentei para o detalhe e você disse que era porque não havia encontrado um sutiã na bagunça do seu quarto. Fiquei mais excitado ainda, e quando tentei beijá-la, você se esquivou dizendo que estava namorando alguém. Não quis acreditar, tentei beijá-la novamente, mas foi em vão. Eu não podia deixar você ir assim. Perguntei como era possível. Eu ainda podia ouviu você me dizendo, dias antes, que não tinha ido à aula porque naquela manhã finalmente eu ia poder tirar sua calcinha. Ainda podia lembrar dos seus dentes mordendo o lábio inferior, fechando os olhos pra aproveitar melhor o prazer daquelas respirações. Podia lembrar do seu All-Star ferindo minhas costas no ritmo intenso do calor daquela última manhã de agosto. Lembrava também das suas costas brancas, suadas, marcadas de vermelho pela força dos meus dedos ansiosos, dos seus gemidos preocupados com o iminente orgasmo, das suas roupas espalhadas pelo chão do meu quarto e… e agora você estava namorando como outro cara… Débora, eu sofri. Mas não era aquele sofrimento de amor, de achar que não ia poder mais passear e mãos dadas sobre a grama, era uma angústia, um desespero de saber que não podia mais me derramar em você, que não podia mais só ter você quando precisasse de sexo, porque, Débora, nem seu amigo eu queria ser, eu só queria você porque eu sabia que algo borbulhava no seu corpo e pedia pelo meu. Foi por isso que eu protestei tão veementemente contra o seu namoro.

— Bom, eu já vou indo. Minhas pernas estão tão cansadas. É o resguardo, falou ela já andando.

Por que você disse essa última frase? A Lívia me contou que você tinha engravidado do novo namorado. No momento bateu um ciúme, não porque eu queria ter um filho com você, mas porque eu fiquei imaginando quantas vezes vocês transaram até concebê-lo, quantas vezes vocês transariam depois de concebê-lo e quantas posições novas vocês inventariam por causa do seu ventre crescido, foi disso que eu senti ciúme, Débora. Olhei para trás e você já ia longe, com sua mãe ao lado. Fiquei irritado. Porque se você tivesse ficado comigo, ou pelo menos tivesse continuado a ir lá em casa de vez em quando, você não estaria agora com um filho para criar, porque eu teria tomado o cuidado necessário, eu sei que teria. Virei o rosto e deixei você ir embora, sem meu olhar abusado a acompanhá-la. Encostei-me novamente à parede e fiquei torcendo para não pensar mais em você e na sua pele branquinha salpicada aqui e acolá de sinaizinhos nos quais tantas vezes eu fixei meu olhar enquanto conversávamos, nus, naquele quarto quente e escuro, porque você pedia que eu fechasse as janelas.

Porta-Retrato

Juazeiro



A Terra



Romeiro



Confissão



Preces e Graças



À Venda



Para onde Aponta a Fé



As cores de nossa senhora



Reizado



Em Campo



Soldados